Sage investe fortemente no mercado brasileiro

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Desde julho do ano passado que a europeia Sage resolveu avançar de forma mais sustentada para o mercado brasileiro. Comprou quatro empresas, de resto a forma clássica da Sage abordar os novos mercados e hoje, são já 1400 os colaboradores que integram a equipa naquele país. Jorge Santos Carneiro, o grande responsável pelo sucesso da

Desde julho do ano passado que a europeia Sage resolveu avançar de forma mais sustentada para o mercado brasileiro. Comprou quatro empresas, de resto a forma clássica da Sage abordar os novos mercados e hoje, são já 1400 os colaboradores que integram a equipa naquele país. Jorge Santos Carneiro, o grande responsável pelo sucesso da Sage em Portugal, foi o executivo “destacado” pela casa-mãe para liderar o processo desta empresa de software de gestão no mercado brasileiro. Desde agosto que se mudou de “armas e bagagens” para S. Paulo e admite estar agradavelmente satisfeito com o grau de sofisticação e formação dos recursos brasileiros. Os principais objetivos passam agora por integrar as empresas. “Queremos alinhar um pouco as culturas das diferentes estruturas que compramos com a cultura da Sage, respeitando sempre a cultura local”, disse o executivo em entrevista exclusiva à B!T.

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A Sage entrou no Brasil pela sua via “normal”? Ou seja, através da aquisição de empresas locais?

Sim, compramos quatro empresas que nos dão uma presença muito forte sobretudo no mercado dos escritórios de contabilidade. Mas também das pequenas empresas.

Hoje a estrutura do Brasil é composta por quantas pessoas?

Temos cerca de 1400 colaboradores.

Como é que a europeia Sage olha para o mercado brasileiro?

O Brasil é considerado um país emergente. Em bom rigor, investimos no Brasil em julho do ano passado através de um processo de aquisições.

Já está finalizado?

A primeira fase, sim. Mas é um processo evolutivo. Entre julho e outubro fechamos a aquisição das tais quatro empresas que falei anteriormente.

As quatro são de software?

Sim, sendo que uma delas também tem conteúdo legislativo.

Mas qual era o objetivo, basicamente conquistar carteira de clientes?

O que queríamos era entrar no mercado. E, como sabe, a estratégia da Sage é comprar empresas já que não exportamos produtos. Produzimos os produtos localmente. Quer dizer que quando compramos uma empresa utilizamos todos os seus recursos. Em particular os produtos, que passam a ser os nossos naquele país. Neste caso, compramos várias empresas e conseguimos vários produtos para vários tipos de clientes. Por outro lado, no caso do Brasil, conseguimos estar em mais do que um estado, mais do que uma cidade. Temos uma empresa em São Paulo, uma em Americana (a 150 quilómetros de São Paulo), outra em Curitiba, outra em S. José dos Pinhais e temos ainda uma empresa em Porto Alegre. Ou seja, com estas aquisições ficamos com uma presença mais extensa. Conseguimos não só complementaridade em termos de portfólio e mercados alvo mas também em termos geográficos. O Brasil difere muito de estado para estado. Só quase a língua é igual.

Em termos de maturidade das empresas, face à realidade europeia, há algumas diferenças, já que este é um mercado de oportunidades?

O mercado brasileiro tem alguns atrasos e, por outro lado, alguns avanços. Há áreas em que admito que talvez esteja um pouco mais atrasado mas há áreas onde claramente está mais evoluído. Por exemplo, está muito evoluído no setor financeiro. Tem um desenvolvimento fantástico, eu próprio como cidadão sinto isso. Tudo muito eletrónico e seguro. Ao nível das empresas, sinto que, em média, no Brasil, há mais pessoas para fazer o mesmo, quando comparado com a Europa. Talvez o nível de produtividade seja mais baixo.

E em termos do mercado onde vocês atuam?

Nesse aspeto, uma das áreas onde o Brasil está muito desenvolvido é na luta contra a evasão fiscal ou seja, da inclusão das empresas no mundo formal. Há uma série de sistemas de controlo que o Brasil tem em prática já há algum tempo que são verdadeiramente inovadores. Coisas que estão agora a ser feitas em Portugal, no Brasil já existem há algum tempo.

Como por exemplo?

Olhe, como por exemplo as guias de transporte. Ou os sorteios para premiar quem pede faturas, que no Brasil funcionam em pleno. Ali, a primeira coisa que nos pedem é o CPF, já não perguntam se queremos o número na fatura. Pedem e pronto. E desde logo isso é positivo pois se tivermos um negócio informal já não podemos passar faturas. As pessoas, genericamente, saem da loja com uma fatura o que é uma questão essencial no combate à evasão fiscal. O documento fatura/recibo é uma peça chave! E tem de ser pedida pelo consumidor, senão não é eficaz.

Jorge Santos

Desde agosto que se mudou para o Brasil. O que mais o surpreendeu pela positiva e o que, por outro lado, pensava que fosse ser mais fácil e acabou por ser mais complicado?

O que mais me surpreendeu foi o nível de sofisticação das pessoas. Acho que os brasileiros têm uma belíssima formação profissional, uma excelente educação. Sinto que há muita competência. Mas o que realmente me surpreendeu foi o otimismo. Venho da cultura portuguesa em que tudo é um fado e chego ao Brasil e é tudo um samba. Bem sei que nem tudo é fado, nem tudo é samba… creio que no meio estará a virtude. Mas isso foi um choque. As pessoas no Brasil têm uma mentalidade de “sim, pois, siga”, enquanto em Portugal muitas vezes é “não, nunca, jamais”. Creio que nem um nem outro estarão corretos, porque muitas vezes no Brasil os “sim” não se concretizam e, por outro lado, em Portugal, muitas vezes os “não” acabam por avançar.

E ao nível dos produtos?

Têm um nível de sofisticação igual aos europeus.

Porque é que não criam mais sinergias com os vossos produtos?

Temos alguns produtos, poucos, que são globais. Mas cada país tem um conjunto de particularidades, nomeadamente no que respeita aos pequenos negócios. Porque há práticas culturais, até mais do que contabilísticas ou legais. Há coisas que fazemos em Portugal que outros não fazem. Por exemplo, em França não existe nota de crédito, existe uma fatura de valor negativo. Tecnicamente é a mesma coisa, mas um português não vai passar uma fatura de valor negativo porque isso não existe. Em Portugal todas as empresas têm de ter um técnico de contas, em Espanha por exemplo não. Isso muda a perspetiva de negócio porque as exigências são diferentes. E os produtos têm de estar preparados para estas realidades. E enquanto uma empresa grande tem técnicos que podem tocar qualquer instrumento, uma pequena não. E depois há outra questão. Nós temos de ter uma capacidade de resposta imediata às alterações fiscais e legais. Temos milhares de clientes. Quando se trabalha com pequenas empresas, tem-se milhares de clientes. Em Portugal temos cerca de 100 mil clientes, com contrato ativo serão uns 60 mil. Temos de ser muito céleres a responder e de uma forma genérica, não pode ser cliente-a-cliente. Por isso tenho de ter a capacidade de, em Portugal, sem estar dependente de Inglaterra ou da América, conseguir responder.

Que fatia do mercado ocupa a Sage no Brasil?

Ao nível dos gabinetes de contabilidade temos uma liderança no estado de S. Paulo, nomeadamente com o nosso produto Folhamatic e ebs. Temos ainda outro produto muito forte, que é menos software e mais conteúdo que se chama IOB.

Vão manter as marcas das empresas que compraram?

Ao nível dos produtos sim. Ao nível das empresas vamos ser cada vez mais Sage. Compramos empresas fortes e por isso precisamos de ir “beber” à marca a notoriedade e a credibilidade que a Sage precisa para poder ser marca.

Têm algum plano traçado, o que esperam do Brasil?

Neste momento estamos a integrar as empresas e a integrarmo-nos a nós próprios. Este para já é o nosso principal desafio. Queremos alinhar um pouco as culturas das diferentes empresas que compramos com a cultura da Sage, respeitando sempre a cultura local, obviamente. Mas há um conjunto de culturas locais que queremos que sejam comuns às Sage em todo o mundo. E por isso temos de as partilhar.

 

 


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