Cientista chefe da IBM fala sobre o futuro [com vídeo]

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Finalizando nossa série de artigos sobre o IBM 5 in 5, estudo que reúne as previsões da gigante da informática para os próximos anos, a B!t Brasil conversou com Fabio Gandour, Cientista Chefe da IBM Brasil e um dos responsáveis pelo estudo. O jeito despojado de Gandour, que nos recebeu no quartel-general da IBM no

Finalizando nossa série de artigos sobre o IBM 5 in 5, estudo que reúne as previsões da gigante da informática para os próximos anos, a B!t Brasil conversou com Fabio Gandour, Cientista Chefe da IBM Brasil e um dos responsáveis pelo estudo.

O jeito despojado de Gandour, que nos recebeu no quartel-general da IBM no Brasil, não entrega o vasto conhecimento que ele carrega em seus mais de 20 anos de experiência. Originalmente médico, ele se apaixonou pelos computadores e desde então tem aprofundado seus estudos, que culminaram na pesquisa de ponta que desenvolve na IBM.

fabio

Como começou sua trajetória na IBM?
Eu fiz uma descoberta matemática no meu campo de atuação como médico, e isso me levou a fazer um PHD em ciências da computação em Stanford. E foi aí que tudo começou, voltei ao Brasil e entrei na IBM para trabalhar com computação orientada à saúde.

Como o 5 in 5 é elaborado?
Temos vários trabalhos internos dos quais o 5 in 5 deriva, feitos anualmente, e o mais profundo e denso desses trabalhos prospectivos é o GTO – Global Technology Outlook. É um exercício anual de prospecção tecnológica, que procura enxergar um horizonte de dez anos.
O GTO demanda muito trabalho de uma quantidade imensa de pessoas, começa a ser feito em março e é finalizado em setembro. Depois de validado e consolidado, ele é publicado em dezembro.
Esse documento tem uma versão interna, com toda visão estratégica, que produz o encaminhamento da nossa indústria. A versão externa é apresentada a clientes.

O GTO é incremental, com partes adicionadas a cada ano?
Não. Ao longo do ano acontecem mudanças tecnológicas que interferem nos próximos nove anos. Existem coisas que passam de ano a ano, mas tudo precisa ser revisto a cada ano, com uma metodologia sofisticada que é aplicada e refinada há 20 anos. É como um mapa genético que mostra como as previsões evoluíram no decorrer do tempo.

Nessas oito edições do 5 in 5, qual a porcentagem das previsões que se confirmou?
Não temos bola de cristal, é um exercício muito métrico, muito aritmético de futurologia. Nosso coeficiente de acerto é de 60%.

A computação cognitiva tem um grande peso na edição desse ano, não?
Sim, ela permeia o 5 in 5 em maior ou menor grau, mas está presente em tudo.

E do que se trata a computação cognitiva?
No começo, a computação era baseada na resolução de equações matemáticas, era a máquina que fazia cálculos, ela projetava a informação a partir do resultado dessas equações, ou algoritmos.
Depois, veio o mundo dos programas, dos aplicativos. Eles traduzem todo esse trabalho de cálculo para uma forma mais amigável, transparente para o usuário. Essa é a computação baseada na sintaxe.
Finalmente vem o processamento semântico, em que o todo é analisado. No mundo dos programas, isso não acontece, mas na computação cognitiva o computador consegue entender como o ser humano se expressa e estrutura seu raciocínio.

O Deep Blue, que venceu o enxadrista Garry Kasparov em 1996, já fazia isso?
Não, o Deep Blue foi o ápice da análise combinatória, um estágio anterior à computação cognitiva. Foi um programa baseado na sintaxe. É uma forma ortogonal de processamento.

O computador que venceu o Jeopardy, tem a ver com o Watson?
Sim, é o Watson, em sua primeira versão. Ele pensa a partir de uma análise semântica.

Então o sistema que cuida de call centers, aplicações financeiras, médicas, é o mesmo?
Exatamente. Hoje o Watson está na versão 2.3, quase 4 anos depois do Jeopardy. A estrutura modular é a mesma, mas ele aprendeu novas coisas. Ele consegue perguntar, como o ser humano, para entender o que precisa ser feito, e usa esse conhecimento para extrapolar e ir além que as máquinas fazem.

Como a computação semântica pode influenciar o Big Data?
Em algum momento essas coisas vão se encontrar, é um estágio anterior à computação cognitiva. O nível de complexidade é muito maior que a análise de um volume maciço de  dados, que aponta tendências. A computação cognitiva pode usar essa informação para entender o cliente e estabelecer um verdadeiro diálogo, para aprofundar esse entendimento.

Na sua opinião, qual o destaque do 5 in 5 deste ano para os negócios?
É a tendência de que o consumo do comércio local vai superar o online.

E como isso funciona?
Veja, aqui no Brasil isso talvez não tenha a mesma importância que nos países da Europa e nos EUA. Nos Estados Unidos tem coisas que você não consegue achar em lojas, apenas online. Quando existe o produto na loja física, você encontra uma ou duas unidades, apenas para satisfazer um improvável comprador da loja.

Isso é muito comum nas lojas de tecnologia e hardware, não? A manutenção dos estoques é muito cara…
Exato, tem uma caixa só, em linha com a filosofia de estoque zero, e comércio online proliferou. Diga-se de passagem, a IBM inventou essa história de e-business, em 1999. Eu na época participei do processo de construção do modelo de e-business, com a missão de ser o porta-voz dos negócios apoiados na internet.
Isso proliferou com intensidade nos EUA, hoje é o sustentáculo de grandes histórias de sucesso, como da Amazon.

E onde entra o comércio local?
Segundo os estudos que fizemos para esta edição do 5 in 5, existe um movimento de valorização do comércio local, da loja perto de casa, com o produto disponível na hora.

Curiosamente, no Brasil existe um movimento parecido, em que as lojas de rua foram varridas pelos shopping centers. Agora é perceptível que nos bairros das metrópoles as grandes cadeias de lojas começam a abrir pontos de venda, mais convenientes…
Isso mesmo, o caminho é comprar em seu próprio bairro.
Prestigiar o comércio local é uma prática sustentável, pois diminui a necessidade de deslocamento e constrói um ecossistema que passa a ser economicamente sustentável. Veja que não basta abrir a porta da loja, é preciso que o lojista faça entregas, personalize a oferta de produtos e serviços para atender a comunidade do entorno.

Para encerrarmos, como você vê a tecnologia hoje?
Uma das bandeiras que carrego como Cientista Chefe desse laboratório (da IBM) é que a tecnologia só faz sentido se estiver a serviço das pessoas. Qualquer pessoa, dos mais alto executivo à mais humilde professorinha do interior do Brasil.
Cada um tem uma necessidade tecnológica. Se você entende essa necessidade e consegue supri-la com a tecnologia, aí ela faz sentido.
Tecnologia como canto de sereia, que promove encantamento na vitrine da loja, essa não serve.

 


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