Filosofia da Xiaomi é muito diferente da Apple

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O crescimento explosivo da Xiaomi pegou muita gente da imprensa na armadilha de denominar a companhia como a “Apple chinesa”. Mas essa denominação não poderia estar mais longe da verdade, pois no cerne, as empresas não compartilham conceitos básicos, e isso faz toda a diferença.

A Apple instila em seus produtos uma aura de exclusividade que vai além do design. Ela vende um estilo de vida que vem junto com o logo da maçã. Veja só, o termo usado: exclusividade, ela exclui a maioria que não tem o dinheiro para pagar o preço do “ingresso” para seu mundo de design clean e não tem o menor problema com isso. Está errada? Não, é a lei do mercado.

A Xiaomi, desde o primeiro produto, quer justamente o contrário: incluir quem ficou de fora, morrendo de vontade de participar do mundo perfeito que a Apple vende. Os seus aparelhos mais em conta não são feitos de liga de alumínio, não tem a pretensão de ter o processador mais rápido, mas, pelo preço certo, oferecem uma experiência de uso honesta e equilibrada.

E por uma pequena fração do preço do hardware da Apple, a Xiaomi conseque acolher quem foi chutado para escanteio, olhado com desprezo. Em vez de tratar como um pé-rapado, entregando um produto inferior, a chinesa se apertou para entregar um hardware extremamente otimizado. Mas o acolhimento vai mais além.

Insatisfeita com a performance do Android, a empresa decidiu, em 2010, modificá-lo fortemente. Daí veio o MIUI, o sistema operacional dos aparelhos da Xiaomi. Desenvolvido a partir do sistema do Google, traz uma série de aprimoramentos originados dos pedidos da comunidade de usuários. Em vez de esperar meses para soltar novas versões, a Xiaomi mudou o regime de vesionamento e criou um ciclo semanal de lançamento, envolvendo diretamente a comunidade de usuários.

Aí, foi mágica. Caiu nas graças de todos, pois liberou, de graça, essa versão modificada do Android para quem quisesse. Como o MIUI na época era cheio de recursos bacanas e rodava em aparelhos mais fraquinhos, muita gente que sonhava com iPhones e aparelhos de ponta conseguiu ter uma experiência incrível graças à Xiaomi. Até hoje, o sistema MIUI continua esse ciclo de atualização e está disponível para quem quiser instalar em seu aparelho.

E aí, outro pulo do gato: quem instala MIUI entra no ecossistema de apps da Xiaomi. E na lojinha própria da chinesa (que tem praticamente tudo que a do Google, menos os apps oficiais da gigante) é possível comprar temas para o MIUI.

E esse é outro negócio de ouro para a Xiaomi. A empresa se define também como uma companhia de software. Daí o empenho no desenvolvimento do MIUI. Cobrando pouquinho por firulas como temas, a empresa consegue uma fonte segura e perene de renda onde os outros não tem.

Claro, a Apple realmente foi fundada com o objetivo inicial de levar às massas computadores, e isso foi especialmente verdade até o lançamento do Apple II, mas daí a cabeça de Steve Jobs foi mudando, os objetivos transformados a tal ponto que virou um objeto de status, quase de opressão.

A Xiaomi quer mais é que todo mundo use seus produtos. Quer que quem não tem condições nem ao menos de bancar um de seus aparelhos dê um jeito de pelo menos sentir um tiquinho como é rodar seu software, morrer de amores pela empresa legal que ela é e guarde cada moeda para comprar um de seus smartphones. Ou pague em 12 vezes, como Hugo Barra fez questão de enfatizar ontem no lançamento.

É tecnologia de consumo para o estudante, para o assalariado no começo da vida, para a massa trabalhadora que quer inclusão. E ela tem orgulho disso.

Por que a Samsung está tomando uma surra da Xiaomi? Porque tenta justamente ser uma Apple. Não é esse o caminho. O mundo não precisa e não comporta outra Apple. O mundo precisa de mais Xiaomis.

Essa atitude da Xiaomi lembra um pouco a atitude da Asus quando apresentou, há alguns anos, o primeiro conceito de netbook. Foi aquele baque, com vários analistas da imprensa falando, cheios de preconceito, que era “computador de pobre”, com tela horrível e processador ruim. Pois naquele momento um novo mercado se abriu e houve uma importante transformação, que fez muita gente ter acesso ao primeiro computador e aqueceu toda a indústria, que amadureceu até o ponto de termos tablets baratos e com boa usabilidade hoje.

A Xiaomi veio bagunçar. Ainda bem. Não é uma empresa messias, a “Apple da China”, como falaciosamente alguns gostam de chamar. Mas tem algo muito interessante acontecendo lá. Vale a pena ficar de olho nela e na mexida que a chegada dela trará no mercado.


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