Espionagem na América Latina: balanço de 2015 e o que esperar em 2016

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Aproveitando que 2015 está chegando ao fim, olhamos para trás sobre o que aconteceu nos últimos meses em temas como espionagem e analisamos o que está por vir.

A era da segurança informática e digital está em um ponto crítico. Chegamos a um momento em que uma grande quantidade de atividades de rotina são feitas através de tecnologia e em que há milhares de milhões de dados pessoais, privados e financeiros que circulam em vários tipos de dispositivos. Isso também acontece na América Latina, onde a população está adotando gradualmente novas tecnologias sem estar consciente, em muitas ocasiões, que a segurança e a privacidade de informações é um problema para o qual devemos prestar atenção.

Existem várias frentes abertas quando falamos em segurança. Desde espionagem por parte dos vários estados (este ano vieram a público dois grandes escândalos relacionados com esta questão) e cibercrimes por hackers que querem usar as informações para enriquecer economicamente. Nesta reportagem, revemos os grandes escândalos envolvendo espionagem estatal e conhecemos o que os especialistas opinam sobre o que o futuro nos reserva.

“A espionagem com base nos interesses políticos vai abrir a porta para novos ataques dirigidos”

Tal como aconteceu em 2014, os problemas com a espionagem cibernética, tanto por parte dos próprios estados como de países terceiros, continuaram em 2015. Há um ano, a Kaspersky Lab previu que “os ataques de ciberespionagem não só aumentariam em quantidade, mas também seriam detetados. A principal motivação não é económica ou científica, como acontece muitas vezes em outras partes do mundo, mas política. A espionagem baseada nos interesses políticos vai abrir a porta a novos ataques direcionados produzidos localmente pelos países que fazem parte da nossa região e irão atacar principalmente países vizinhos, como explicam os especialistas em segurança”.

Hacking Team

O maior escândalo registrado em 2015 foi quando se descobriu que a maioria das nações latino-americanas tinha recorrido a serviços de Hacking Team. A lista de clientes da região incluía o Chile, Colômbia, Equador, Honduras, México e Panamá, com o país nortenho o que leva o primeiro lugar em quantidade de dinheiro investido em ferramentas da empresa, atingindo quase os 6 milhões euros.

Destaque para o produto estrela da empresa italiana é o denominado Sistema de Controlo Remoto Galileo (RCS, do inglês Remote Control System Galile), um software que permite intercetar computadores, chamadas por Skype, e-mails, mensagens instantâneas e senhas, dando a possibilidade de interferir comunicações de todos os tipos. Este software permite à distância em qualquer dispositivo, fixo ou móvel, e evitar qualquer mecanismo de proteção tais como criptografia ou antivírus, de acordo com o anúncio promocional.

FinFisher

Não só Hacking Team deu que falar nos últimos 12 meses. Mais recentemente, soube-se da existência de um novo software, chamado FinFisher, que usa, que se saiba, até agora, mais de 30 governos ao redor do mundo, a fim de espionar seus cidadãos. Governos latino também estão usando esta solução de espionagem, de acordo com a CitizenLab em  seu último relatório.

FinFisher é uma suite de spyware, criado e comercializado pela empresa Gamma International, e seus governos clientes exclusivos. Sabe-se que países como México, Paraguai e Venezuela ter contratado o FinFisher.

Comunicações da Colômbia

Outro caso preocupante, conhecido em 2015, foi publicado pela Privacy International (PI), uma ONG britânica que monitoriza as invasões de privacidade por parte dos governos e corporações e que em agosto passado publicou um relatório  que revelou que os serviços de inteligência da Colômbia  tem poderosos sistemas capazes de monitorar as comunicações sem que os cidadãos saibam.

A coisa mais surpreendente é que isso não é novidade: de acordo com a organização europeia, o governo de Bogotá leva cerca de duas décadas criando esse amplo sistema de espionagem que controla os cidadãos através das comunicações. O objetivo é claro: aprender mais sobre os atores do conflito armado no país, de acordo com o relatório.

Após o escândalo, enquanto o governo colombiano negou oficialmente a sua ligação com Hacking Team, as autoridades não mencionaram nada sobre esse assunto.

Previsões de especialistas para 2016

De acordo com as últimas previsões da Kaspersky Lab, a tendência na América Latina, de resto uma tendência mundial, é que a espionagem por parte dos Estados irá continuar a ser um problema a ser enfrentado em 2016. De acordo com a empresa de segurança russa, “o mundo começou uma corrida de armamento cibernético de forma silenciosa que pode ser vista através de casos de espionagem e a América Latina não vai se livrar dela.”

Diz o último relatório da Kaspersky Lab que “tanto as agências governamentais como grupos de mercenários cibernéticos irão realizar ataques para roubar informações secretas que possam influenciar decisões de negócios ou vender a quem pagar mais.”

Espionagem a partir dos EUA

Os governos latino-americanos desconfiam dos Estados Unidos, incluindo seus principais aliados na região, desde que Edward Snowden relatava há um par de anos as práticas que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos levada a cabo para conhecer os segredos de outras nações. No entanto, nenhum concretizou planos para prevenir que isso continue acontecendo.

Por outro lado, e relacionado com as comunicações, soube-se há uns meses que a gigante telefônica AT&T é um grande aliado do governo dos EUA para espionar cidadãos. Publicava a SiliconWeek alguns meses atrás, fazendo eco de um artigo do The New York Times que “a capacidade da Agência de Segurança Nacional para espionar grandes quantidades de dados que rolam pela Internet nos Estados Unidos se baseou em sua extraordinária colaboração por décadas com uma empresa: a gigante das telecomunicações AT&T”. Isto foi descoberto graças a alguns documentos que datam de entre 2003 e 2013. Acredita-se que esta empresa também ajuda Washington a espionar vizinhos.

Pois isso poderia se tornar um problema de segurança no futuro próximo para a América Latina já que a AT&T que agora está em processo de conquistar o mercado mexicano, onde tem grandes planos para expansão.

A liberdade de imprensa?

Outro dado a não perder nesta análise é o publicado pela Kaspersky Lab explicando que “a América Latina se tornou na maior região geradora de campanhas de vigilância cibernética por meio de ataques dirigidos principalmente a jornalistas“. Mais preocupante, dizem os especialistas, é que as agências de inteligência do governo podem estar envolvidas.

Dmitry Bestuzhev, diretor para a América Latina da equipa global de investigação e análise da Kaspersky Lab, destacou que “as características técnicas do desenvolvimento de vírus envolvem custos elevados, pelo que se pode deduzir que as agências estaduais estão por trás de campanhas implantam códigos nos dispositivos que lhes permitem aceder à informação e conteúdo das comunicações dos usuários “.