Entrevista da Semana: “Foi a integração mais fantástica que já vi nesse mercado”, diz Enio Issa sobre pós-venda da Ação para Ingram

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Em outubro do ano passado, o comunicado da norte-americana Ingram Micro, distribuidora global de TI, causou certo rebuliço no mercado ao notificar, sem revelar valores, a aquisição do Grupo Ação. Até porque, a brasileira vinha apresentando bons resultados, havia pouco tempo em novas e modernas instalações e dona de uma carteira de fornecedores estratégicos como IBM, Oracle, Red Hat, EMC, HP Enterprise e VMware.

Seu crescimento derrubou fronteiras nacionais estendendo-se para Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Uruguai e Equador. Em 2015, a Ação superou as expectativas em rentabilidade, mesmo em um cenário econômico adverso. Obteve aumento da receita de cerca de 25% e crescimento da companhia em torno de 20%.

Ainda assim, Enio Issa, presidente do Grupo Ação, resolveu vender a companhia. “Na verdade, a Ação não estava à venda. Foi uma questão de oportunidade para continuar crescendo”, disse o executivo em entrevista à B!T Magazine.

Segundo ele, o mercado de distribuição exige crescimento constante para manter a competitividade e para isso é necessário capital, o que no Brasil não é um recurso dos mais baratos. “Pensamos em expandir para o México e também abrir capital entre 2006/2007. Mas abandonamos a ideia frente a um 2008 com graves turbulências na economia e Bolsa de Valores brasileira brutalmente atingida, que não se recuperou até hoje”, diz Issa, para quem, diante de cenário inibidor, viu-se de pés e mãos atados.

“Foi aí que apareceu a Ingram, recheada de inovações em seu modelo de negócio, mas sem a dimensão da Ação aqui no Brasil. Entao, ‘juntou a fome com a vontade de comer’ ”, brinca, acrescentando que a sinergia com a Ingram levou à decisão pela venda.

“Outra vantagem é que nosso nível de conflito com a Ingram é muito pequeno. Unindo nossos ecossistemas, no total de 9 mil revendas, somente 30 compravam mais que 30% de cada uma das empresas, ou seja, quase nada.”

Em meio à consolidação das companhias, outro anúncio surpreendeu em fevereiro de 2016: a compra da Ingram Micro pelo fundo de investimento chinês Tianjin Tianhai Investiment Company or US$ 6 bilhões. Uma movimentação que só veio a fortalecer ainda mais a Ingram Micro, que passou a ter um único dono, simplificando a operação. Depois de concluída a negociação, a empresa passa afaze parte do Grupo HNA.

Sem largar o barco

Issa não deixou a operação, ao contrário. Ocupa o segundo cargo mais importante da companhia, o de diretor-executivo Advanced Solutions no Brasil, respondendo diretamente para Diego Utge, vice-presidente da distribuidora em solo nacional.

“Eu desejava continuar na operação por motivos pessoais também. Temos de nos realizar como ser humano. Devo muito aos funcionários e ao ecossistema de canais que ajudei a construir”, diz.

Durante os dois últimos meses, participou ativamente do redesenho da Ação Ingram Micro, ajudando na construção do que ele acredita ser uma nova potência no mercado de distribuição global que, ao unir os dois ecossistemas, forma um exército de nada menos do que 9 mil revendas, munidas de 70 marcas. Um arsenal capaz de proporcionar soluções altamente competitivas pela diversificação, acredita Issa. “Cuidamos do alinhamento de funcionários, do desenho do organograma da organização, e do rearranjo dos parceiros.”

Você deve ter-se perguntado: o nome da empresa será esse? Em princípio, sim, mas o executivo estima que depois de algum tempo o nome da Ação desapareça. “É natural. Em mais de 80% dos casos parecidos no mercado, a marca adquirida desaparece. Para mim não é problema algum”, diz e revela que um estudo detalhado sobre o impacto da marca está em curso para que a decisão seja o mais assertiva possível.

Trem nos trilhos

Depois de tantas mudanças, chegou a hora de colocar o trem nos trilhos e matar as curiosidades do setor e, em especial, tranquilizar os fiéis escudeiros: parceiros Ingram e Ação.

No final da semana passada, a distribuidora realizou o primeiro evento para integrar as cem principais revendas de cada uma das empresas em São Paulo. A estratégia será repetida em outros estados que tem forte presença como Rio de Janeiro, Minas Gerais… O Objetivo é integrar o time, apresentar o portfólio e mostrar como estão preparados para atender ao mercado.

“Fizemos tudo isso em um tempo recorde”, gaba-se o ex-presidente do Grupo Ação. “Foram apenas dois meses. Iniciamos o processo de redesenho somente depois do dia 21 de dezembro, quando a negociação da compra foi concluída oficialmente.”

“A integração foi fantástica, sem nenhuma demissão. São 557 pessoas, sendo 200 da Ação no Brasil. Todas tiveram oportunidade e aproveitamento nesse rearranjo”, comemora. “Algumas mudaram de função nesse realinhamento. O importante é que todos os nossos colaboradores foram preservados. Coloquei com tranquilidade minha cabeça no travesseiro por ter dado oportunidade a todas as pessoas”. “É claro que tudo depende e dependerá da habilidade e da competência de cada um.”

Nessa reformulação entre as duas organizações, segundo Issa, 40% dos cargos de liderança estão sendo ocupados por profissionais da Ação. “Por aí é possível comprovar que houve, de fato, uma sinergia muito grande e o aproveitamento dos talentos e consequentemente do conhecimento da Ação.”

“Por isso, posso dizer com toda a tranquilidade que nunca vi uma integração tão harmônica e fantástica. Nem parece verdade quando falamos isso”, diz o ex-presidente do Grupo Ação, que afirma estar vivenciando momento especial em sua trajetória profissional. “Estou planejando até escrever um livro do tipo: ‘Como cheguei lá…’, para contar a história junto com todos que me ajudaram a construir um ecossistema admirável”, promete.


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