Entrevista da Semana | Watson: do mercado financeiro à busca pela cura do câncer 

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Steven Goetz, vice-presidente global da IBM para as indústrias de telecomunicações, mídia e entretenimento esteve no Brasil e conversou com a BITmag sobre a Watson, o supercomputador com inteligência artificial que pretende transformar o nosso mundo e suas aplicações no mercado brasileiro. E, sim, a Watson é ELA. 

O vice-presidente global para as indústrias de telecomunicações, mídia e entretenimento da IBM, Steven Goetz, esteve no Brasil para falar sobre as possibilidades de transformação dos negócios através do uso de inteligência artificial e computação cognitiva e a BITmag pôde conhecer um pouco mais sobre o supercomputador da IBM, a Watson.

Sim, Watson, apensar de ter sido batizada em homenagem ao fundador da IBM, Thomas John Watson, é na verdade ELA, e tratada como uma entidade feminina internamente da Big Blue.

O uso de máquinas de computação cognitiva com capacidade de aprender progressivamente está se tornando cada vez mais comum e as primeiras aplicações da Watson no mercado brasileiro já dão resultados.

O primeiro projeto da Watson no Brasil começou ainda em julho de 2015, quando a IBM deu início a um projeto para uso das ferramentas do seu supercomputador no call center do Banco Bradesco. Informações do Bradesco foram carregadas na Watson e o sistema passou a responder então com uma assistente virtual a perguntas com contexto dos funcionários do banco sobre suas rotinas de trabalho.

A prova de conceito entrou em operação em janeiro deste ano e em apenas quatro meses a assistente virtual conseguiu números que impressionam: 83% das perguntas orais foram totalmente compreendidas, 100% das perguntas escritas entendidas, 85% entendidas com linguagem coloquial e gírias, 70% com regionalismos, 85% entendidas com erros de digitação e ortografia, 90% com repetição e abreviação e 70% com prolixidade. Em julho deste ano, a Watson estava em operação em 700 agências do Bradesco respondendo perguntas sobre mais de 15 produtos do banco e agora já se estendeu para as mais de 8 mil agências da instituição financeira e seus mais de 50 produtos. O Bradesco trabalha agora para a implantação da Watson em sua área de saúde, a Bradesco Saúde.

O Banco do Brasil também já trabalha com a Watson, assim como os laboratórios Fleury. No caso da Fleury Medicina e Saúde, o primeiro projeto de saúde da Watson na América Latina, o supercomputador passa a ajudar na tomada de decisão médica na assistência personalizada com precisão. A parceria utiliza a solução Watson for Genomics – hospedada na nuvem, a Watson ajuda a identificar medicamentos e ensaios clínicos relevantes publicados na literatura médica com base em alterações genômicas de um indivíduo, facilitando o planejamento de opções terapêuticas personalizadas, incluindo o tratamento de câncer.

As possibilidades de uma tecnologia como a Watson são infinitas e nessa entrevista com o Goetz é possível ter uma pequena amostra delas.

 

BITmag – Como a Watson se insere na estratégia da IBM e como ela pode ajudar as empresas na transformação digital de seus negócios?

Steven Goetz – Nós na IBM estamos passando por uma grande transformação. Vemos essa tecnologia como um todo, a Watson e a computação cognitiva, como uma transformação significativa no nosso caminho para o sucesso no futuro.

Tivemos grandes sucessos no passado, colocamos pessoas na lua, e aceitaremos com satisfação essa tecnologia como nosso próximo desafio. Nós temos aspirações enormes: queremos fazer a diferença no mundo.

Nossa CEO, Ginni Rometty, está empenhada nesta tecnologia e ela encarregou a todos nós de desenvolvê-la para criar valor para os nossos clientes no mercado. É um game changer disruptivo.

Se olharmos para a estratégia fundamental da IBM, somos uma provedora de soluções de negócios na nuvem e temos uma abordagem de mercado por indústria. E essa tecnologia cognitiva e Watson estão completamente alinhadas a essa estratégia.

Processos básicos fundamentais da indústria podem ser melhorados com essa tecnologia. Ela está disponível como software como serviço (SaaS) e como um grande programa de integração para grandes corporações, está integrada a todos os sistemas de backend que têm atualmente.

Vocês já têm soluções de computação cognitiva do Watson em alguns clientes aqui no Brasil. Como se dão as vendas?

Diretamente. Temos a capacidade instalada no país para atender o mercado. Os funcionários da IBM Brasil sabem como fazer isso. Temos um time global de experts, o qual lidero, e ajudamos times locais quando requisitado. Mas como regra, nossos times locais sempre são capazes de fazer essas vendas e implementações. E se, por qualquer razão que seja, precisarem de suporte, estamos à disposição e enviamos nossa força global para ajudá-los. Não precisamos de parceiros de negócios para implementar essa tecnologia. É tudo conosco.

Como as soluções de computação cognitiva estão ajudando as diferentes indústrias?

Solharmos a indústria de serviços financeiros, há uma quantidade imensa de processos que podem ser melhorados com Watson e tecnologias cognitivas. Por exemplo, uma companhia de seguros. Clientes ligam para fazer cotações de seguro e inteligência artificial pode prover suporte e ajudar representantes e clientes diretamente em coisas como cotações financeiras, cotações em produtos e serviços financeiros. Para uma companhia de health care, Watson é usado para ajudar médicos a prescrever o tratamento correto para pacientes com câncer. Um dos atributos do sistema é sua habilidade de digerir grandes quantidades de dados e múltiplos tipos de dados. Esse é um dos elementos chave desse sistema computacional. Pense que quando um médico faz um diagnóstico e um plano de tratamento, ele ou ela precisa olhar jornais médicos, ver pesquisas anteriores, saber o histórico médico. E não há maneira que um médico tenha acesso a todo jornal médico já escrito, a toda informação existente sobre um tipo específico de câncer. Watson pode fazer isso e dar ao médico um ponto de vista baseado na tecnologia.

O mesmo se aplica a um advogado, que precisa pesquisar precedentes para um processo (jurisprudência). É como nos velhos filmes de advogados pesquisando numa biblioteca. Watson pode fazer tudo isso por você.

Então, processos fundamentais que temos nos negócios e na indústria, assim como no governo, podem fundamentalmente sofrer uma disruptura com essa tecnologia. Queremos fazer a diferença, queremos fazer a diferença no mundo, queremos fazer a diferença para os nossos clientes. E essa tecnologia pode fazer isso por nós.

E Watson tem tecnologia de deep learning. Ele aprende a cada processamento, a cada requisição, certo? Eu fico chamando o Watson de ele… é inevitável...

Eu ia corrigir você. Porque é na verdade ela. É, sim, ela. Por que não? Quem vai questionar? Watson foi batizada em homenagem a nosso fundador, que na verdade era um homem. Mas Watson é ELA. Nos a tratamos por ela na IBM.

E Watson é treinada para aprender. Sistemas computacionais no passado eram programados. Eles faziam o que você pedia que fizessem. Nada mais, nada menos. Se pedisse para que fizesse algo estúpido, eles o fariam. Eu me lembro de alguns programas que fiz enquanto estudava e eu cometia erros. E eles faziam o que pedíamos que fizessem. Como uma criança.

Mas Watson é um sistema treinado para aprender. Quanto mais informação você dá a ela, mais ela aprende, ela ensina a si mesma. Então, da primeira vez que você faz uma pergunta a ela e ela responde, pode ser que ela tenha 30% ou 40% de certeza de que a resposta está correta. E ela te dirá isso. “Estou 30% certa de que a resposta está correta”. E com o passar do tempo, essa certeza vai para 99,999%. Ela se ensina. Você coloca intenção no cortex dela e ela aprende sozinha. Se assistir à Watson no gameshow Jeopardy, o que você vê na tela das respostas é a certeza da Watson em cada resposta. E é tão legal. Estou nesse negócio 40 anos e nunca estive tão empolgado com algo como com ela. Sinto-me como uma criança numa loja de doces. Está me fazendo sentir mais jovem.

E o que é a Watson? Como você a define?

É um supercomputador, que se converte em software, está na nuvem, está quase em todo lugar. E em teoria pode ser acessada de qualquer lugar. Claro que precisa de um trabalho de integração e há também algumas limitações de legislação em certos países, como na China. Sempre haverá algumas restrições como essa. Não vamos reduzir o conceito a algo tão simples, mas certamente a intenção é que ele possa ser acessada e esteja disponível para qualquer um. Entretanto, para a maioria dos nossos clientes, como provedores de serviço de comunicação, há ambientes altamente complexos, com múltiplos sistemas de bilhetagem, múltiplos sistemas de atendimento ao cliente, empregados. Então precisa haver uma integração complexa com esses sistemas.

Não é complexo ao ponto de dizer que não pode ser feito. Pode ser. E demonstramos que pode ser feito. Mas não quero que soe que você pode chegar em casa, ligar o seu computador, acessar a nuvem e se conectar a ela.

E qual o diferencial da Watson em relação a outras ferramentas de assistentes virtuais?

Há uma diferença muito importante. A Siri, da Apple por exemplo, também não foi inventada do dia para a noite. E esses sistemas são desenhados para que você faça uma pergunta e ele te devolva uma resposta, mas são perguntas curtas, o que chamamos de short tale question. Você pergunta: “Como está o tempo hoje?” “Qual o telefone de fulano?”

Mas a questão da Watson é que ela lida com long tale questions, você pode desenvolver uma conversa com ela, e ela lhe acompanha. São questões relacionadas para a resolução de um problema. Se você pergunta à Siri como está o tempo hoje, ela te diz. E se você faz outra pergunta também te responde, mas a segunda pergunta não será correlacionada com a primeira, não há inteligência. Watson responde a perguntas correlacionadas. “Qual a minha fatura?”, “Por que isso foi cobrado?”, “E isso?”, “E se eu fizer tal coisa?”… E Watson pode responder a elas de maneira integrada.

Você mencionou que Watson já tem 80% de seus APIs traduzidos para o português do Brasil. Há quanto tempo estão trabalhando para a tradução desses APIs para o nosso idioma?

Na verdade foram desenhados para atender o nosso primeiro cliente a usar a Watson no Brasil. Entre os clientes públicos no Brasil, o primeiro foi o Bradesco, que desde o ano passado utilizam a Watson com especificidades da linguagem do português brasileiro, com gírias e expressões. Temos também o laboratório Fleury e o Banco do Brasil.

A Watson é baseada em ferramentas, e essas ferramentas também são conhecidas como APIs em algum grau. Há funcionalidades fundamentais, como a conversão de fala para texto, texto para voz, categorização e recuperação de respostas, análise de sentimento. Há 30 delas. Eu amo análise de sentimento.

Na Copa do Mundo, Watson fez análise de sentimento do que era postado no Twitter no Brasil, mesmo as gírias e palavrões puderam ser traduzidos e analisados. E a Watson trabalha também com a The Weather Company, empresa que compramos para alimentar a Watson com informações de previsão do tempo.

A utlilizamos no serviço de Fiel Advisory. Temos APIs da The Weather Company que podem direcionar técnicos de campo com base na previsão do tempo. Informações sobre o tempo são dados muito ricos e são parte de muitas tomadas de decisão. Por isso carregamos os dados da The Weather Company na Watson.

A IBM abriu algumas partes do Watson para a colaboração de outras empresas ajudarem no desenvolvimento de novas tecnologias e aplicações, certo?

A IBM tende a ser uma empresa bem aberta. Não implementamos uma abordagem walled garden em nossas tecnologias. Disponibilizamos APIs, coisas do tipo. Somos colaborativos. Isso é essencial para a nossa estratégia. E nem todas as empresas operam dessa forma. Isso não significa que somos melhores. Há empresas igualmente bem sucedidas que têm estratégias diferentes.

E o que podemos esperar para a Watson no futuro?

O Dr. John E. Kelly, head of research da IBM, já foi questionado sobre isso e o que ele respondeu foi, se é que eu posso fazer jus a suas palavras, que o que faz disso tão empolgante é que hoje conseguimos fazer uso de apenas 5% da capacidade da Watson. E ainda temos tanto mais por fazer. O céu é o limite. Vou continuar a dedicar minha carreira a encontrar casos de uso em que essa tecnologia possa ajudar nossos clientes a criar valor para seus negócios. É a isso que a minha vida profissional é dedicada. E apenas enxergamos a ponta do iceberg.

E por que apenas 5%? Falta algum tipo de capacidade? Processamento?

Não. Na verdade não. É que é tudo muito novo. Veja dessa forma: Há cinco anos, essa tecnologia venceu um ser humano campeão do game Jeopardy na TV. Cinco anos depois, ela está desenvolvendo protocolos para o tratamento de pacientes com câncer. Quem é que sabe o que ela fará depois? Não sabemos. Pode ser mais rápida, pode ser acessada por mais consumidores, pode evoluir infinitamente. 

E digo novamente: queremos fazer a diferença. Quando nossa CEO olha para essa tecnologia, ela quer curar o câncer, coisas que nunca fomos capazes, questões da sociedade que nunca haviam sido desafiadas antes.


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