Entrevista da semana | IBM: Inteligência (pouco) artificial

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Podem até chamar-lhe de inteligência artificial. Mas de artificial tem pouco. A IBM “insiste” em materializar conceitos como a computação cognitiva ou a AI e aplicá-los às empresas. E, sobretudo, às sociedades. Porque não uma triagem médica feita através de computação? Costas Bekas, investigador principal dos Laboratórios IBM Research, em Zurique, falou com a B!T numa recente palestra que deu em Portugal e garante que este é todo um novo mundo.

A Inteligência Artificial (IA) é parte integrante da computação cognitiva onde os sistemas não são programados: eles compreendem, raciocinam e aprendem. Pelo menos é o que defende a IBM. Ou seja, basicamente estes sistemas têm a capacidade de formular hipóteses e dar respostas com um elevado nível de confiança. Exemplo claro disso é o IBM Watson, o sistema cognitivo desta mais do que reconhecida empresa norte-americana. O caro Watson, que nada tem de elementar, acabaria por ficar mundialmente (re)conhecido quando no programa televisivo norte-americano Jeopardy!, em 2011, defrontou os dois melhores concorrentes de sempre. E, sem grande espanto, venceu.

Costas Bekas, investigador principal dos Laboratórios IBM Research, em Zurique, que tivemos oportunidade de entrevistar numa recente palestra que deu em Portugal, diz, no entanto, que já chega de jogos. E que é altura de aplicar todos estes conceitos ao negócio. Ou seja, chegou a altura de materializar todos estes investimentos em inovação, de resto a grande missão desta tecnológica que investe em I&D qualquer coisa como cinco mil milhões de dólares por ano. Um investimento em capacidades analíticas que têm vindo a ser aplicadas em indústrias como a saúde, o retalho, a educação e a banca, com o objetivo de ajudar a extrair conhecimento do amontoado de dados não estruturados que são produzidos diariamente.

Que impacto pode ser a Inteligência Artificial na atual sociedade?

Costas Bekas (CB) – Vejamos: hoje geramos dados, certo? Grandes volumes de dados. Mas… o que estamos a fazer com esses dados? Há uma clara aceleração no ritmo da inovação? Sim, há. Mas podia ser muito mais acelerado se conseguíssemos tirar partido dos dados que temos à nossa disposição. O que estamos neste momento a fazer é a usar a tal computação cognitiva para ajudar a extrapolar os dados, já que ela mimetiza a forma como uma pessoa analisa a informação para tomar uma decisão. Ou seja, se a esta inteligência de máquina, ou computação cognitiva, juntarmos um humano que guie todo o processo, temos ferramentas para que possamos navegar corretamente por todo este oceano de dados. E podemos ter médicos a fazer melhores diagnósticos, professores a lecionar melhor, um investigador farmacêutico a desenvolver melhores medicamentos. Pode ser aplicado a tudo. Tudo.

Transportemos isto para o ambiente empresarial. As empresas sabem que os dados são, neste momento, o seu bem mais precioso?

CB – Não. Aliás, quando alguém me pergunta qual o preço da computação cognitiva eu respondo com outra pergunta: qual é o preço de não saber o que se passa? Um dos problemas que vemos nas empresas modernas é a falta de capacidade para entenderem o que sabem… ou não sabem.

E como é que conceitos como a Internet das Coisas (IoT) veio, por exemplo, ainda baralhar mais este ambiente?

CB – Os humanos têm nervos. E sentidos. Através dos sentidos e do sistema nervoso, somos capazes de interagir com o mundo e compreender como as coisas são, mesmo que tenhamos as nossas preferências. A IoT é uma analogia desse sistema nervoso. Que pode interagir com tudo, recolhe informação por forma a percebermos o mundo de uma melhor forma. Esta é a analogia.

Mas vai criar então ainda mais dados…

CB – Vai criar mais informação. E é esse o ponto crucial. Porque se me disser que vai instrumentalizar o mundo de uma forma que apenas o consiga medir, posso desde já dizer-lhe que não vale a pena. Não se dê a esse trabalho. Hoje, temos informação para preencher um quarto de milhão discos de um terabyte por dia. Um valor impossível de escalar economicamente. Quer dizer que alguma desta informação tem de ser combinada com computação e análise logo no local onde os dados são adquiridos, aquilo que denominamos por “edge computing”. Assim, não é necessária grande compressão para enviar todos os dados, já que apenas enviamos os dados úteis. Os necessários.

E qual é o papel da IBM em toda esta era cognitiva?

 CB – A IBM não inventou propriamente a Inteligência Artificial, apesar de “desde sempre” a utilizar. O que realmente a IBM aporta de diferente é trazer todas estas tecnologias para o mundo empresarial.

Materializam a AI?

CB – Exatamente. Uma aplicação é ter, por exemplo, melhor motores de tradução. Do inglês para o alemão, digamos. É bom, as pessoas gostam, tem utilidade e toda a gente fala nisso. Mas outra coisa, que joga num “campeonato” totalmente diferente, é ter um sistema médico de triagem – que tem de ser dotado de extrema precisão. Não é tão “cool”. Mas é real. E pode alterar substancialmente os custos dos cuidados de saúde. Por isso, o foco da IBM é pegar na computação cognitiva, nas tecnologias de Inteligência Artificial, na aprendizagem por computador (machine learning) e, para além de alargar as suas fronteiras, aplicá-las em campos que possam criar um grande impacto nos negócios e nas sociedades. Esse é o nosso foco.


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