Índice de medo e ganância do Bitcoin: o que 8 anos de dados mostram
Em 12 de fevereiro de 2026, o índice de medo e ganância do Bitcoin marcou 5, numa escala que vai de 0 a 100. Foi a leitura mais baixa de toda a série, empatada com 23 de fevereiro do mesmo ano e com 22 de agosto de 2019. Naquele dia, o bitcoin fechou em US$ 66.272. Quem acompanhou o noticiário ouviu a frase de sempre: medo extremo é hora de comprar.
Para saber se a frase se sustenta, cruzamos 3.172 dias do índice público de medo e ganância com os preços diários públicos do bitcoin, de fevereiro de 2018 a outubro de 2026. O resultado é bem menos limpo do que a frase.
O que é o índice de medo e ganância do Bitcoin
O índice funciona como um termômetro de humor. Ele resume, num número de 0 a 100, se o mercado de bitcoin anda assustado ou eufórico. Perto de zero, o clima é de medo. Perto de cem, de ganância. O próprio índice divide a escala em cinco faixas. Medo extremo vai de 0 a 25, medo de 26 a 46 e neutro de 47 a 54. Ganância vai de 55 a 75, e ganância extrema, de 76 a 100. Em 13 de outubro de 2026, a leitura era 57, ou seja, ganância. Um dia antes, estava em 69.
Um detalhe que costuma passar batido: o índice atual mede só o bitcoin, e não o mercado cripto inteiro.
Como o indicador de medo e ganância é calculado
O número sai de uma mistura de sinais, cada um com peso fixo. A volatilidade, que é o tamanho das oscilações do preço, pesa 25% junto com as quedas máximas recentes, sempre comparadas com as médias de 30 e 90 dias. O momento de mercado e o volume, ou seja, a direção do preço e quanto se negocia, pesam outros 25%. As redes sociais entram com 15%. Uma pesquisa com investidores teria mais 15%, mas está pausada. Fecham a conta a dominância do Bitcoin, que é a fatia dele no valor total das criptomoedas, com 10%, e as tendências de busca, com mais 10%.
Na prática, metade do índice é o preço olhando para o próprio passado recente. Isso explica por que ele quase sempre afunda depois de uma queda e sobe depois de uma alta. Funciona como um retrovisor, que mostra com nitidez a estrada percorrida e nada da curva seguinte.
Fevereiro de 2026: o medo extremo acompanhado até o fim
Voltemos ao dia em que o índice marcou 5. Fevereiro de 2026 inteiro ficou no medo extremo, com 28 dias de 28 e média de 10,0 no mês. É exatamente o cenário que a regra popular descreve. Quem publica o índice diz, com todas as letras, que medo extremo pode ser uma oportunidade de compra, e que ganância demais indica que o mercado deve uma correção. Então vale seguir quem comprou bitcoin no fechamento de 12 de fevereiro, a US$ 66.272.
Trinta dias depois, em 14 de março, o preço estava em US$ 71.212, uma alta de 7,5%. Em 13 de maio, 90 dias após a compra, chegou a US$ 79.314, ou 19,7% acima. Até aqui, a regra parece infalível. Só que a história não parou em maio. Em 30 de junho, o bitcoin fechou em US$ 58.625, 11,5% abaixo do preço de compra, e o índice tinha voltado a 15. Ao completar 180 dias, em 11 de agosto, o preço era de US$ 63.600, ainda 4,0% abaixo do ponto de partida.
O mesmo dia de medo extremo parece uma compra brilhante ou um erro, dependendo de quando alguém abre o extrato. Quem olhou em maio contou a história como prova de que a regra funciona, e quem olhou no fim de junho contou exatamente a história oposta, com a mesma data de compra. O índice não mudou de opinião. Quem mudou foi o calendário.
O índice mede o mercado, não o seu saldo
Há um efeito do humor do mercado que pouca gente liga ao índice: ele mexe no valor de qualquer saldo guardado em bitcoin. Desde 2018, a mediana das janelas de 30 dias foi uma alta de 1,6%, mas em 10% delas o preço caiu 18,9% ou mais. Em outros 10%, subiu 30,2% ou mais. Esse vaivém atinge quem investe e também quem usa o bitcoin só como meio de pagamento, porque o preço em reais não pergunta a ninguém para que a moeda estava guardada.
Pense em alguém que mantém um saldo em BTC numa plataforma de casino online bitcoin. O valor desse saldo em reais sobe e desce com o preço, aconteça o que acontecer nos jogos. Um saldo em BTC guardado em 12 de fevereiro de 2026 valia 11,5% menos em dólar no fim de junho, com o índice ainda no medo extremo. Uma queda de 18,9% num mês não aparece em resultado nenhum, mas aparece na hora de converter para reais. É como guardar dólares numa gaveta: a nota continua a mesma, o que ela compra é que muda.
O índice também não avisa com antecedência. Ele varia, em mediana, 3 pontos por dia, e só 9,6% dos dias registram mudança de 10 pontos ou mais. Como metade do cálculo vem do preço recente, quando o salto aparece o preço em geral já se moveu. Olhar o índice, portanto, não protege saldo nenhum.
Nas apostas esportivas com bitcoin, o mesmo efeito ganha um intervalo de tempo. A aposta e o eventual pagamento são feitos em BTC, mas a conversão para reais pode acontecer dias depois, a outro preço. O valor final em reais depende, então, de duas coisas sem relação entre si: o jogo e a cotação. O índice de medo e ganância não ajuda a prever nenhuma das duas.
O que 8 anos de dados mostram, zona por zona
Um caso isolado prova pouco. Dos 3.172 dias da amostra, 739 foram de medo extremo, ou 23,3%. A ganância extrema foi bem mais rara, com 282 dias, ou 8,9%. Para cada dia, medimos quanto o bitcoin tinha subido ou caído 30, 90 e 180 dias depois, sempre pelo preço de fechamento. A tabela mostra a mediana, que é o valor do meio quando todos os resultados são postos em fila, e a parcela de casos com alta.
| Zona do índice | Dias | Mediana em 30 dias | Casos com alta em 30 dias | Mediana em 90 dias | Casos com alta em 90 dias | Mediana em 180 dias |
| Medo extremo (0-25) | 739 | +1,6% | 57,4% | -4,0% | 45,5% | -2,8% |
| Medo (26-46) | 909 | 0,0% | 50,1% | +2,7% | 52,0% | +18,1% |
| Neutro (47-54) | 401 | +2,8% | 53,6% | +7,1% | 60,2% | +28,5% |
| Ganância (55-75) | 841 | +1,8% | 54,8% | +5,1% | 58,4% | +14,1% |
| Ganância extrema (76-100) | 282 | +5,6% | 60,1% | +10,1% | 60,1% | +8,7% |
| Todos os dias | 3.172 | +1,6% | 54,4% | +3,1% | 53,9% | +13,8% |
Leia a linha do medo extremo contra a última. Em 30 dias, as duas empatam, com mediana de 1,6%. Em 90 dias, a mediana depois do medo extremo foi de -4,0%, contra +3,1% considerando todos os dias, ou 7,1 pontos contra a regra. Em 180 dias, foi a única zona com mediana negativa, de -2,8%. As melhores medianas de 90 dias vieram do neutro e da ganância extrema, com +7,1% e +10,1%. A zona que a regra manda aproveitar teve os piores números, e a que manda temer teve um dos melhores. No segundo ciclo, porém, a ganância extrema também ficou negativa em 90 dias, como mostramos adiante.
A mediana, porém, esconde a largura do caminho. Depois de um dia de medo extremo, em 10% dos casos o bitcoin caiu 33,0% ou mais em 90 dias. Em outros 10%, subiu 40,9% ou mais. Com uma faixa dessas, qualquer média vira uma frase sobre o passado, e não uma promessa.
Por que “comprar no medo” funcionou em um ciclo e falhou no outro
Entre 2018 e 2021, o medo extremo foi seguido de uma mediana de +7,2% em 90 dias e de +29,5% em 180 dias. Entre 2022 e 2026, os mesmos prazos deram -9,2% e -14,2%. No segundo ciclo, só 37,2% dos dias de medo extremo tiveram alta em 90 dias.
| Ciclo | Dias de medo extremo | Mediana em 90 dias após medo extremo | Casos com alta em 90 dias | Mediana em 180 dias após medo extremo | Mediana em 90 dias, todos os dias |
| 2018-2021 | 318 | +7,2% | 56,3% | +29,5% | +6,7% |
| 2022-2026 | 421 | -9,2% | 37,2% | -14,2% | +1,8% |
Por que a virada? Porque o medo extremo não chega em dias soltos. Ele vem em ondas. Os 739 dias de medo extremo formam só 35 episódios, contando como um só os dias separados por até uma semana. Os cinco maiores episódios somam sozinhos 327 dias, ou 44% do total, o que significa que quase metade da amostra veio de cinco temporadas ruins. A tabela, portanto, não reúne 739 casos independentes. Reúne poucas temporadas longas de pessimismo, e cada uma pesa muito no resultado.
O índice passou 74 dias seguidos no medo extremo, de 6 de maio a 18 de julho de 2022. Quem comprou no primeiro dia dessa onda, com o índice em 22 e o bitcoin a US$ 36.014, estava 16,9% abaixo em 30 dias. Em 90 dias, a perda chegava a 37,2%, e em 180 dias, a 44,0%. O medo não era exagero. Era o começo de um ano inteiro de queda, com 207 dias de medo extremo e média de 25,3 no índice em 2022.
O medo extremo ocupou 42% dos dias de 2018 e 57% dos de 2022, com 138 e 207 dias. Quase sumiu em 2023 e 2024, com 3 e 8 dias. E voltou com força: nos 365 dias até 12 de outubro de 2026, foram 187 dias de medo extremo, ou 51%.
Isso diz algo sobre o que move o preço no curto prazo, e sobre por que o índice de medo e ganância parece tão certeiro em retrospecto. Quando a maioria compra pensando no ganho rápido, e não em guardar valor, o humor coletivo tende a pesar muito no preço de curto prazo. Um texto sobre reserva de valor ou especulação lembra que, no Brasil, o uso principal da cripto ainda é o investimento especulativo. Num mercado assim, o medo pode durar meses, e um índice que só mede humor não sabe dizer quando ele acaba.
Ganância extrema: o topo nem sempre vem com euforia
A outra ponta também engana. O maior fechamento do bitcoin na série foi de US$ 124.659, em 6 de outubro de 2025, e naquele dia o índice marcava 71. Era ganância, mas não ganância extrema. O topo não veio com o termômetro no máximo, e quem esperou pela ganância extrema para desconfiar do preço simplesmente não recebeu o aviso naquele ano. Já a sequência mais longa de ganância extrema durou 76 dias, de 6 de novembro de 2020 a 20 de janeiro de 2021.
Entre 2018 e 2021, a ganância extrema foi seguida de uma mediana de +48,3% em 90 dias, com alta em 72,4% dos casos. Entre 2022 e 2026, a mesma zona deu -3,9%, com alta em 36,5%. São só 96 casos medidos no segundo ciclo, uma amostra pequena. Quem tratasse a ganância extrema como aviso de venda teria errado no primeiro ciclo. Quem a tratasse como sinal de força teria errado no segundo.
Como ler o medidor de medo e ganância sem transformá-lo em sinal
Nada disso torna o índice inútil. Ele é um bom resumo do clima, desde que seja lido como resumo, e não como oráculo. Os erros mais comuns com o índice de medo e ganância vêm de tratá-lo como previsão do que acontece amanhã. Alguns cuidados ajudam:
- Olhe o ciclo, não só o número. A mesma zona levou a resultados opostos em 2018-2021 e em 2022-2026.
- Conte os dias seguidos. Um dia isolado de medo extremo e uma sequência de 74 dias são situações diferentes.
- Compare com a média. Em 90 dias, a mediana de todos os dias foi +3,1%, e uma zona só se destaca de fato se ficar acima disso.
- Lembre que ele chega depois. Metade do cálculo vem de preço e volume recentes, então ele descreve o movimento que já ocorreu.
- Separe humor de previsão. O passado da tabela não garante nada sobre os próximos meses.
Ele ajuda a entender por que o noticiário parece tão sombrio, ou tão eufórico, num dado dia.
Perguntas frequentes
Qual é o índice de medo e ganância do Bitcoin hoje?
Em 13 de outubro de 2026, o índice estava em 57, na faixa da ganância. Na véspera, marcava 69, uma queda de 12 pontos em um dia. O bitcoin tinha fechado o dia 12 em US$ 81.850. Isso dá perto de R$ 410 mil pelo dólar PTAX de venda de 13 de outubro, de R$ 5,0096, divulgado pelo Banco Central, porque o dia 12 foi feriado. Como a leitura muda todo dia, vale conferir sempre a data.
Onde ver um gráfico de medo e ganância do Bitcoin?
O índice é público e tem histórico diário desde fevereiro de 2018. Vários sites de dados de mercado mostram um gráfico com as mesmas cinco faixas, de medo extremo a ganância extrema. Ao comparar fontes, confira os limites de cada zona, porque neste índice o medo extremo vai de 0 a 25. Para a visão de longo prazo, as tabelas deste texto resumem os mais de 8 anos da série.
O índice vale para outras criptomoedas?
Não. O índice atual é calculado só para o bitcoin, com dados de volatilidade, volume, redes sociais, dominância e buscas. Como o bitcoin costuma puxar o resto do mercado, muita gente o usa como termômetro geral, mesmo sabendo que ele não foi desenhado para isso. Mas uma moeda menor pode seguir um humor bem diferente.
Medo extremo é hora de comprar bitcoin?
Os dados não sustentam a regra como sinal. Em mais de 8 anos, a mediana em 90 dias depois do medo extremo foi de -4,0%, abaixo dos +3,1% de todos os dias. No ciclo 2018-2021 o resultado foi positivo, e no ciclo 2022-2026, negativo. Resultado passado não garante resultado futuro. O número que vale olhar antes de qualquer decisão é outro: em 10% dos casos, o bitcoin caiu 33,0% ou mais nos 90 dias seguintes ao medo extremo. A pergunta útil é se você atravessaria uma queda assim sem precisar do dinheiro.
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